quinta-feira, 22 de maio de 2008

#1

tinha uma intuição daquelas de pessoas burras, daquelas que dentre tamanha estupidez habitual consegue, por menos que um momento, ser excepcionalmente brilhante, de uma inteligência rara da qual nunca nós, pessoas ditas de maior capacidade intelectual, ousaríamos alcançar. porque dentre tanta ingenuidade existia sim alguém que acreditava nas pessoas e ocasionalmente conseguia ler a verdade em olhos alheios mentirosos.

um vislumbre de uma outra possibilidade.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

#zero

eu não me importo de quebrar copos. eu vivo quebrando copos. a minha mãe se importa, ela nunca gostou que eu quebrasse tantos copos. mas eu... Eles escapam da minha mão, deslizam, pulam, riem de mim (desastrada, descuidada, repreensões maternais) enquanto se partem em mil cacos. eu não lamento mais. por mais que eu tente cuidar, lá estão eles - os copos! - prontos para fugirem do meu tato. uns preferem fingir que a culpa foi do detergente de louça e vão em um pulo louco de encontro ao inox da pia. outros praticamente explodem no ar, como se meus dedos fossem o botão que detona a bomba de vidro. um a um os copos quebram. e eu vivo quebrando copos. e mesmo quando prometo que terei mais cuidado, ainda assim o hábito continua. mas eu não me importo mais. então eu pego a pá, a vassoura e varro todos aqueles pequenos pedaços de vidro que partiram-se em mil pequenas jóias afiadas. às vezes eles, os copos, me cortam. mas nunca é nada; saboreio distraída o sangue ainda fresco até que estanque. e sigo recolhendo os pequenos e traiçoeiros pedacinhos - enrolo-os em jornal porque não quero que ninguém mais se machuque com os cacos que foram meus copos. e sigo quebrando-os, sem culpa. se tiver que passar a vida assim, quebrando e comprando novos para depois repô-los novamente, não vou reclamar. será a renovação das células da minha casa, como as que a gente muda por toda a vida. e chegará um dia em que quebrarei meu último copo, e ele será a minha redenção. e a desculpa para não quebrá-los nunca mais.