sexta-feira, 6 de junho de 2008

#2

ela resolvera falar de suicídio outra vez, enquanto brincava com o cigarro apagado entre os dedos. "você só pensa em morte", digo; "e você só pensa em vida", ela retruca. "a vida é o que temos, é o que existe", "a vida não me interessa". não compreendo, juro que não compreendo por que, de repente, os olhos castanhos dela nublam. "às vezes a dor é tanta que outra dor é um alívio", ela diz, e nos lábios há um sorriso tão triste que me desnorteia. ela faz pequenos talhos com gilete pelo corpo, linhas profundas tatuando dores.

um dia ainda vou encontrá-la de pulsos cortados, imersa na banheira, sei que vou - o sangue espalhado no azulejo, o longo cabelo molhado e morno, um mosaico de carne e suspiros velados. já planejei isso várias vezes: chamar a polícia, ligar para os pais... programo palavras, gestos e atos. sei que a cada dia ela se despede de um modo, muitas versões de um mesmo adeus. queria conseguir dizer-lhe para ficar, que preciso dela, consolá-la garantindo que tudo vai ficar bem. não posso, já não me importa o que é melhor para mim. só espero que ela alcance o vôo que deseja.

só espero.