segunda-feira, 16 de março de 2026
#5
O hiato só é hiato porque um dia acaba. Senão, seria fim.
A boa filha à casa torna. Dezoito anos depois.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
#4
pensamentos acerca da morte... alheia
Pensar na morte alheia é tão ruim quanto desejá-la ou efetivamente causá-la? Há diferenças, é claro, mas o fato de somente não matar tornaria menos pior? Se o pensamento existe, já basta para dita maldade estar em curso? Controlar instintos, dizem, é a diferença que carrega a humanidade. Mas só por que eles são controlados não significa que não existam ou não sejam reais. O que impede é a consciência do que não deve ser feito. Numa sociedade hipotética em que causar a morte de outrem não fosse crime, haveria vida em paz ou seria uma guerra, uma terra de ninguém, uma caça sanguinária? Pergunto-me se no momento em que Anúbis for comparar meu coração a uma pluma se ele estará pesado desses pensamentos...
Pensar na morte alheia é tão ruim quanto desejá-la ou efetivamente causá-la? Há diferenças, é claro, mas o fato de somente não matar tornaria menos pior? Se o pensamento existe, já basta para dita maldade estar em curso? Controlar instintos, dizem, é a diferença que carrega a humanidade. Mas só por que eles são controlados não significa que não existam ou não sejam reais. O que impede é a consciência do que não deve ser feito. Numa sociedade hipotética em que causar a morte de outrem não fosse crime, haveria vida em paz ou seria uma guerra, uma terra de ninguém, uma caça sanguinária? Pergunto-me se no momento em que Anúbis for comparar meu coração a uma pluma se ele estará pesado desses pensamentos...
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
#3
Eu sei que dia é hoje. Sim, é o seu aniversário, não pense que esqueci: eu nunca esqueço. Apesar de não ter calendário, lembro a data e a hora. Fica tudo guardado na minha mente, tatuado na retina como o brilho da luz verde de um relógio digital quando acordamos no meio da madrugada. Faz tempo que não confiro mais os dias - todos passam cinzentos e nublados. Desde que você não estava mais presente e deixou a casa vazia. A rotina é oca, os passos ressoam no assoalho. kParece que ainda ouço seu pigarro seco e o dedilhado no violão. O piano desafinou de abandono, as janelas estão de braços fechados, bloqueando o sol. Acredite, é melhor assim. A luz iluminaria a maldição da solitude. O vazio é o fim em si e esquece de terminar.
Mas sei que dia é hoje. Ainda não chegou a meia-noite. É sua data festiva. Que celebro em silêncio contido, em uma metonímia da dor.
Mas sei que dia é hoje. Ainda não chegou a meia-noite. É sua data festiva. Que celebro em silêncio contido, em uma metonímia da dor.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
#2
ela resolvera falar de suicídio outra vez, enquanto brincava com o cigarro apagado entre os dedos. "você só pensa em morte", digo; "e você só pensa em vida", ela retruca. "a vida é o que temos, é o que existe", "a vida não me interessa". não compreendo, juro que não compreendo por que, de repente, os olhos castanhos dela nublam. "às vezes a dor é tanta que outra dor é um alívio", ela diz, e nos lábios há um sorriso tão triste que me desnorteia. ela faz pequenos talhos com gilete pelo corpo, linhas profundas tatuando dores.
um dia ainda vou encontrá-la de pulsos cortados, imersa na banheira, sei que vou - o sangue espalhado no azulejo, o longo cabelo molhado e morno, um mosaico de carne e suspiros velados. já planejei isso várias vezes: chamar a polícia, ligar para os pais... programo palavras, gestos e atos. sei que a cada dia ela se despede de um modo, muitas versões de um mesmo adeus. queria conseguir dizer-lhe para ficar, que preciso dela, consolá-la garantindo que tudo vai ficar bem. não posso, já não me importa o que é melhor para mim. só espero que ela alcance o vôo que deseja.
só espero.
um dia ainda vou encontrá-la de pulsos cortados, imersa na banheira, sei que vou - o sangue espalhado no azulejo, o longo cabelo molhado e morno, um mosaico de carne e suspiros velados. já planejei isso várias vezes: chamar a polícia, ligar para os pais... programo palavras, gestos e atos. sei que a cada dia ela se despede de um modo, muitas versões de um mesmo adeus. queria conseguir dizer-lhe para ficar, que preciso dela, consolá-la garantindo que tudo vai ficar bem. não posso, já não me importa o que é melhor para mim. só espero que ela alcance o vôo que deseja.
só espero.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
#1
tinha uma intuição daquelas de pessoas burras, daquelas que dentre tamanha estupidez habitual consegue, por menos que um momento, ser excepcionalmente brilhante, de uma inteligência rara da qual nunca nós, pessoas ditas de maior capacidade intelectual, ousaríamos alcançar. porque dentre tanta ingenuidade existia sim alguém que acreditava nas pessoas e ocasionalmente conseguia ler a verdade em olhos alheios mentirosos.
um vislumbre de uma outra possibilidade.
um vislumbre de uma outra possibilidade.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
#zero
eu não me importo de quebrar copos. eu vivo quebrando copos. a minha mãe se importa, ela nunca gostou que eu quebrasse tantos copos. mas eu... Eles escapam da minha mão, deslizam, pulam, riem de mim (desastrada, descuidada, repreensões maternais) enquanto se partem em mil cacos. eu não lamento mais. por mais que eu tente cuidar, lá estão eles - os copos! - prontos para fugirem do meu tato. uns preferem fingir que a culpa foi do detergente de louça e vão em um pulo louco de encontro ao inox da pia. outros praticamente explodem no ar, como se meus dedos fossem o botão que detona a bomba de vidro. um a um os copos quebram. e eu vivo quebrando copos. e mesmo quando prometo que terei mais cuidado, ainda assim o hábito continua. mas eu não me importo mais. então eu pego a pá, a vassoura e varro todos aqueles pequenos pedaços de vidro que partiram-se em mil pequenas jóias afiadas. às vezes eles, os copos, me cortam. mas nunca é nada; saboreio distraída o sangue ainda fresco até que estanque. e sigo recolhendo os pequenos e traiçoeiros pedacinhos - enrolo-os em jornal porque não quero que ninguém mais se machuque com os cacos que foram meus copos. e sigo quebrando-os, sem culpa. se tiver que passar a vida assim, quebrando e comprando novos para depois repô-los novamente, não vou reclamar. será a renovação das células da minha casa, como as que a gente muda por toda a vida. e chegará um dia em que quebrarei meu último copo, e ele será a minha redenção. e a desculpa para não quebrá-los nunca mais.
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